[LP]Todo começo tem uma história (FINAL)   Leave a comment

/OFF: Comece pelo começo, leia aqui/

(Lorea)

Mais uma vez, ela tinha se perdido naqueles pensamentos. Mais uma vez aquela onda tomou toda capacidade de pensar. E, foi por pouco dessa vez. Algumas pessoas costumam subestimar o poder da depressão, mas quando ela chega, a coisa costuma ficar feia. Não tem nada pior do que estar caindo, saber disso, ver isso, querer mudar a situação, mas não ver a saída – a única luz que havia, era aquela que estava ficando cada vez mais distante, e mais borrada.
Mas agora ela estava bem, Piotr estava ali. Não que ela entendesse o porquê dele chegar, sentar, e não se importar com um motivo. Era aquele desprendimento, aquela leveza que a surpreendia em Piotr. Ele sempre estava lá pra ajudar e confortar, sem precisar saber motivos – e era essa falta de curiosidade que a deixava cada vez mais com necessidade de desabafar. Um nó que estava na garganta dela e começou a dissipar no momento que ela o viu ali. E, no lugar desse nó, começou a nascer uma agonia, uma vontade incontrolável de contar tudo, de despejar todos aqueles dias as palavras que ela nunca quis falar, nem sozinha.
Ao lado dessa vontade agonizante, também crescente, veio aquele medo, já velho conhecido, de fazer as pessoas sofrerem com a história dela – aquela sina era só dela, ela não tinha direito de impô-la a mais ninguém. Por alguns momentos, pareceu que aquele medo a tinha vencido, de novo. Suspirou, e recostou a testa na cabeça do ucraniano, enquanto as lágrimas ainda fluíam pelo rosto, indo encontrar refúgio nas costas dele.

Abraçou-o pelo pescoço, e, como agradecimento, beijou sua nuca. Não que ela tivesse em condições de pensar alguma coisa, mas ela precisava desesperadamente de mostrá-lo a sua gratidão, o quanto significava sua presença e o apoio dele ali, naquele momento. E que, a amizade deles, já não podia ser mais encarada como eles iam levando, não era mais um simples companheirismo – eram íntimos demais pra isso.
Agora, eles eram mais que irmãos. E não foi preciso nenhuma palavra pra formalizar. Porém, depois disso, ela tinha que falar. E, foi quando ele virou-se para ela, olhando-a nos olhos, não com pena, nem com um olhar questionador, mas… de compreensão. Compreender o que? Porque ele parecia entender e aceitar o que nem sabia? Daonde vinha isso?
Mas, era hora de se controlar. Ela estava para se tornar mais próxima de alguém do que pensaria que ainda era capaz, depois de perdê-lo. E, dessa vez, não sentia nenhum medo.
-Piotr – o garoto fez menção de interrompê-la, mas um olhar o fez aquiescer – eu preciso falar. Eu tenho segurado isso por tempo demais, mas, ao mesmo tempo, eu não quero ser um peso para você. Tá, eu sei que isso soa meio infantil, mas, acho que acima de todos, você deve entender esse sentimento – o garoto assentiu – e, assim… Eu nunca contei pra ninguém, e nunca achei que um dia eu iria estar contando isso pra alguém, muito menos assim, um garoto que fosse se tornar tão especial – quase excepcional, ela quase acrescentou, lembrando-se da piadinha do ucraniano. Você sabe que tem alguém na minha vida, no meu passado, que… digamos que foi tudo. Éramos melhores amigos, desde pequenos, aquela pessoa que eu queria assim, pra sempre, do meu lado. Nos conhecemos antes mesmo de ter alguma consciência, desde bebês.

<FLASHBACK>

O sol era como um minúsculo ponto brilhante num ponto quase escondido do céu; enormes nuvens cobriam todo o céu, pintando o horizonte com um cinza meio depressivo. Os raios de sol que conseguiam penetrar a densa camada de nuvens, chegavam no solo em vários feixes, dando a aparência de serem sobrenaturais, os lugares que atingiam, com um brilho como que mágico.
Embora mágicos, esses lugares não eram mais quentes, parecia que a atmosfera congelante da cidade conseguira resfriar a energia solar a ponto de torná-la ineficaz. Para aqueles que passavam a pé, a imagem poderia ser um tanto quanto deslumbrante – mas poucos eram aqueles que se arriscariam a sair naquelas condições climáticas. Nuvens carregadas eram um pressuposto certo para enchentes, algo não muito agradável a uma temperatura de +2C. Em algum dos anos anteriores (ou pelo menos no imaginário coletivo de todos mais velhos, já que ninguém sabia exatamente, ou com uma mínima precisão quando isso acontecera), a água que restou das enchentes, dentro das casas, nos becos, até em algumas ruas, simplesmente congelou, triplicando o trabalho para recuperar a cidade.
Sempre que viam alguma tempestade se aproximar, principalmente no dia de S. João (diziam os trouxas que todo ano, no dia de S. João chovia – e, coincidência ou não, sempre acontecia), as crianças torciam, no fundo de seus corações, para que acontecesse algo parecido – imagine só, patinar no meio da rua, quebrar o gelo dentro de casa, fazer guerra de gelo entre vizinhos; era tudo um sonho. Bom demais pra acontecer, ainda bem.
E, esse dia de S. João, estava bom demais, para uma catástrofe. Embora fosse claro, quase todos ainda resistiam à idéia de sair de casa, ou pior, de deixar seus filhos saírem. Das crianças da vizinhança, poucas estavam no parquinho, sentadas, como que conversando.
Olhando um pouco mais de perto, percebia-se que não eram bem crianças, eram adolescentes. Por volta de 13, 14 anos, provavelmente em férias escolares.
_ Então A.K. já não é mais… Quer dizer, ela perdeu… – dizia incrédula uma garota, de longos cabelos ruivos, obviamente surpresa pela notícia.
_ Anteontem, na casa do Fred. Ele veio correndo contar, parecia uma criança que tinha acabado de ganhar uma caixa de chocolates – completou um garoto de cabelos negros curtos, olhos claros e uma voz um com uma ponta de inveja.
_ É.. quem diria que ela seria a primeira garota a perder a virgindade daqui… Assim, ela é né? – continuou a garota – e vocês aí, com o que estão sonhando aí? O Gus não falou nenhuma besteira até agora!
_ Ah, Katie, não fique tão surpresa assim. Tudo bem, tudo bem, a gente até esperava que você já estivesse grávida, mas, viu, as pessoas surpreendem – rebateu um dos sonhadores, rindo.
A garota, a tal Katie, ficou vermelha, e não soube responder, apenas resmungando palavras como idiota, ou a filiação de Gus. De qualquer modo, o garoto sorriu aliviado. Eles nem desconfiam pensou ele, dando um sorriso, e passando a mão, no joelho da garota ao seu lado, uma morena de cabelos ondulados, que, embora pouco ondulado, contrastava gigantemente com o cabelo de todos os outros, que chegava a parecer lambido, de tão liso. Com um safanão e um olhar de censura, Gus quase ganiu.
_Looreeaa – reclamou baixinho
_Não aqui, não agora, não com todo mundo em volta.
_ Mas… mas…
_Eu só quero que dê tudo certo, Gus. Você sabe como são os pais de todo mundo aqui. E que, se eles souberem que a gente quer ficar junto, eles vão surtar. Imagina se descobrem que… – a garota não conseguiu completar a frase, e nem encarar Gus mais, olhando para o chão, e torcendo do fundo do seu ser para que ela parasse de ficar vermelha antes de alguém reparar.
_Hey, hey, Lorii – chamou Gus, com uma voz macia, até que ela o encarou – eu te amo. E nunca vou te abandonar. Você vai estar sempre comigo, e eu com você. Depois daquilo, há exatamente 23 dias, nós somos um só. Eu pertenço completamente a você, por mais que a Katie queira, ou pareça querer, mudar essa história. Não é qualquer bocózinha que vai me roubar de você não, tá?
_AAAAH ÉÉÉ, Senhor Gustav Brittes? Quer dizer então que não é qualquer bocó? – enfatizando o qualquer – então alguma roubaria?
_Mimimi, mimimi. Mas geente, que menina mais mimimizenta essa que eu arrumei, c’orror.
<FIM DO FLASHBACK>
Quem dera ele tivesse sido capaz de manter sua promessa. Ele não foi culpado, não, de maneira alguma. Ele dera o seu melhor. Lorea sabia disso. Mas essa informação não a dava nenhum conforto – talvez ela pedisse demais.
_ E, Piotr, mais tarde, no mesmo dia, um grupo fundamentalistas atacou a cidade. Foi horrível. Estávamos eu e o Gus, longe de casa, numa outra praça, onde quase ninguém iria nos reconhecer; Gus era mais velho, dirigia uma moto, o que sempre nos dava alguns momentos longe de todos conhecidos.
Eles chegaram repentinamente, gritando, soltando fogos de artifício, parecia o fim do mundo, sério mesmo. Gus, out of the blue, conseguiu nos esconder, no meio das plantas. Não havia tido tempo para pensar, aquilo salvou a nossa vida, ao menos, temporariamente. Estávamos fugindo dali, com ele mal conseguindo manter a barreira de proteção, até que ele olhou para o lado.
Foi uma das cenas irreais. Eles invadiam as casas, quebravam tudo que pudesse ter valor, e jogavam pelas janelas, fazendo uma montanha enorme de coisas. Havia de tudo, mesas, quadros, vidros, pedaços de camas, roupas, computadores, bancos, tudo, tudo. Jogaram um líquido, e três se aproximaram. As ondas de calor que saíam daquela enorme fogueira chegaram a provocar queimaduras em quem estava mais perto. Eu senti minhas bochechas queimando, e a gente estava a um quarteirão de distância. Por um momento, pensei que Gus ia acelerar ainda mais, até que nós dois vimos… Piotr, eu nunca vou esquecer aquilo. Eles pegavam as crianças, os adultos, todos, Piotr, todos.
Rasgavam suas roupas, surravam,de sair sangue, Piotr.Crianças de quatro, cinco anos, com sangue escorrendo pelo corpo inteiro, o rosto totalmente deformado de levar tapas, chutes, pauladas, pedradas, chicotadas, coronhadas, eles batiam com tudo que tinham. E, quando começaram a jogar as pessoas na fogueira, ah, Piotr, que horrível. Ele não agüentou. Ele não agüentou ficar parado vendo aquilo. Ele já tinha 18 anos, era o mais velho da turma, e simplesmente não agüentou. Ele levantou-se lutou, ah como ele lutou Piotr. Derrubou sete invasores, antes de levar a primeira pedrada. Foi certeira, fez um rasgo enorme na testa dele, e eu não podia fazer nada. Com o sangue jorrando, ele conseguia salvar as crianças, os jovens, um a um. A polícia começou a chegar, a confusão ficou feita. Os caçadores viraram as caças, e eles começaram a correr, desesperadamente, sumindo, assim como chegaram. Mas, antes disso, um deles disparou contra ele. Piotr, eu vi o corpo do meu namorado ser jogado pra trás, de uma maneira que eu nem sonhava que podia acontecer.
Alguns paramédicos chegavam até ele, e foi quando eu consegui me mexer, e corri até ele, já era um caso perdido. Ele olhava pra mim, triste, mas não arrependido. Eu não conseguia fazer nada, Piotr, fora chorar. E chorava, e chorava. Até que ele me disse “Eu sinto saudades… do… do seu sorriso” Ah, Piotr, como eu ia poder sorrir? Eu não consegui, de jeito nenhum, mas eu tentei. Disse que ficaria tudo bem, até que ele me mandou largar de ser boba, e ser feliz. Ele disse que eu era boa demais pra parar ali. Eu o beijei, Piotr. E você não tem noção do quanto é ruim, beijar uma pessoa, e sentir o último suspiro de vida dessa pessoa, dentro da sua boca.
No fim do beijo, ele suspirou. E sua cabeça pendeu pra trás, nos meus braços. Ah Piotr, que vontade de morrer, de chorar, de gritar, de sair socando cada idiota armado que estava pelo local. Vontade de xingar os policiais por terem demorado, os paramédicos por não salvá-lo, vontade de me socar por ter feito ele ir lá comigo, ter namorado com ele, ter estado com ele. Se nada tivesse acontecido, provavelmente estaríamos vivos, e nada disso teria acontecido.
Mas não, eu não me arrependo, de ter estado com ele. Aqueles meses, Piotr, eu fui mais viva que somando todo o resto da minha vida. Acordar feliz, dormir feliz, me ferrar na escola feliz. Aquilo era perfeito. Mas, acabou. E, eu não consigo virar a página, passar para a frente, não quero esquecê-lo. Eu sei que você não pode fazer nada, Piotr, mas eu precisava que alguém que soubesse dar importância pra isso, ouvisse. Piotr, obrigada. Você é meu anjo, minha vida, meu irmão. Te amo, irmão.

Anúncios

Publicado 07/23/2010 por Abigobaldo em Lorea & Piotr

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: