Surpreenda-se   Leave a comment

Uma coisa que eu reparei há pouco tempo nos apóstolos, principalmente em Paulo, é que todos eles, assim como crianças, sempre se surpreendiam com a força e o poder da mensagem que levavam. Não estou falando assim, dos primeiros anos, mas desde o começo do seu discipulado até nas cartas que Paulo escrevia. Na carta aos Gálatas, por exemplo, Paulo começa falando de tudo o que ele tem feito, dos lugares que viajara, e de repente, ele encerra a primeira parte da carta com “E glorificavam a Deus a respeito de mim” (Gl 1:24).

Cara, isso é um traço de humanidade assim, impressionante. Porque essa surpresa de Paulo não deveria existir no maior pregador de todos os tempos. Eles pregavam e convertiam 5, 6 mil homens, sem contar mulheres e crianças, e mesmo assim, a cada viagem, a cada cidade, Paulo se surpreendia.

O verdadeiro poder divino deixa os homens, maduros, já com certa idade e experiência assustados e impressionados como crianças. Taí um dom de uma criança: a facilidade de serem surpreendidas; por isso se impressionam tanto com palhaços, mágicos, e tudo aquilo que não conseguem compreender.

É essa magia, esse poder do Evangelho que tanto nos surpreende quando somos crianças na Palavra, nos primeiros anos logo após nossa morte. E, com o passar dos anos, assim como os palhaços e mágicos perdem a graça, nós tendemos a encarar o evangelho como um desses entretenimentos, algo que acreditamos, algo que é possível, que existe, mas que não nos surpreende mais. E, em busca desse reavivamento, da nossa própria esperança, da nossa fé, acabamos nos vendo em meio à auras de misticismo, de preparações e criamos burocracias para que nos sintamos seguros.

Daí surge a necessidade de se ver milagres, de toda reunião ou culto ser tremendo, de levantar as emoções e superar as expectativas – e perdemos a simplicidade do evangelho, porque pessoas passam a ser metas, e louvor e adoração passam a ser joguetes de emoções cuidadosamente planejados, com reviravoltas e orações programadas para acontecer, cujos tópicos já estão pré-definidos.

Nós sufocamos o Espírito Santo, e nos perguntamos por que a nossa fé é tão frágil. Nós determinamos quando, por quanto tempo e como o Espírito deve agir, e quando ele não se faz presente, nós marcamos mais reuniões e para levantar a fé da liderança. Daí, essas reuniões de liderança ficam cada vez mais corporativas, e os papéis hierárquicos, que eram uma fonte de apoio e aconselhamento se tornam uma diretoria que cobra mais metas e resultados, e, repentinamente, ganham autoridade suficiente para decidir quem é e quem não é digno de estar ali, sendo juízes não mais de seus próprios pecados, mas dos pecados de todos os seus subordinados (liderados? Pff) e classificam-os de acordo com a importância e grandeza dos seus erros, não mais com a sinceridade de seu pedido de perdão e mudança de atitude.

E, correndo para manter a nossa meta, ou atingir os nossos objetivos, passamos a ler mais e mais manuais e testemunhos como verdades absolutas, a adotar sistemas e planejamentos que funcionaram em outros lugares, e a bíblia passa a ser vista não mais como uma leitura, prazerosa, uma reflexão sobre o que eu tenho vivido e o que eu tenho feito, mas um livro tecnicista que, se eu espremê-lo, vai me dar uma fórmula exata para sair de A e chegar a B.

Daí liderados viram funcionários, pessoas viram números, jantares, reuniões e confraternizações são cada vez maiores e mais festivas e barulhentas, e o número de pessoas que você realmente conhece, ao invés de crescer, só diminui.

Porque, quando você se vê, se afastou daqueles que caminharam contigo no começo dessa corrida maluca, porque cada um tinha mais obrigações que o outro, e menos tempo para… ficarem juntos; os seus liderados se confessam a você, e tem em você um grande amigo e uma pessoa para todas as horas, mas você, bom você não tem ninguém. Não há ninguém acima de você, nessa hierarquia bisonha humanamente construída com um só propósito: separar. Sim, o novo significado de Santo, o separado para o Senhor.

E aquele Evangelho de relacionamento, de graça, sumiu, é uma ferramenta técnica. Cadê aquela criança?

Nessas horas, eu olho para Paulo, que, no meio do seu ministério, se surpreendia. “E glorificavam a Deus a respeito de mim” (Gl 1:24)

Traduzindo, no que alguém diria hoje, seria algo no estilo. Cara, cê não vai acreditar. Os cara ainda ajoelhavam, e davam glórias a Deus, e agradeciam a MIM, cara? A MIM! Como se eu tivesse feito alguma coisa, meu. Que louco, véi, bizarro.

Eu quero viver a bizarrice desse evangelho, dessa palavra.

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Publicado 12/27/2010 por Abigobaldo em Opinião

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