Do nascer do sol.   3 comments

Hoje eu vi o sol nascer de dentro de um ônibus coletivo. Tem se tornado um hábito, ver o sol nascer, pegando ônibus em algumas cidades do Brasil, desde que resolvi prestar esses processos seletivos para Mestrado.

Não sei porque, mas toda vez, dentro de mim há um quê de excitação, de alegria, toda vez que vejo o sol nascer, escalando os prédios, lançando raios tímidos sobre uma cidade que reluta em acordar – mesmo já estando atrasada em pleno horário de verão. Ver as pessoas indo e vindo, imersas em seus fones de ouvido, em seu último cochilo antes do trabalho, aqueles, mais desconfiados, que lançam olhadas furtivas à sua volta, procurando coisas suspeitas, os solteiros desesperados que creem na possibilidade de encontrar o amor da sua vida num ônibus, mesmo que a garota esteja mais interessada em procurar quarenta novas maneiras de se arrumar no banco para se sentir mais confortável.

Todas essas pessoas, tão imersas no seu cotidiano, nas suas tarefas inúteis, que acabam por perder tudo aquilo que acontece à sua volta. Preferem se contorcer por mais 15 minutos na cama – que vão ser muito mais que quinze minutos de correria para chegar na hora; preferem tentar cochilar confortavelmente enquanto as suas cabeças batem confortavelmente na janela do ônibus; preferem se frustrar tentando tantas outras coisas que simplesmente ver o sol nascer.

Ver o sol nascer, por incrível que pareça, não me faz lembrar da minha intimidade com Deus, ou ter epifanias acerca da Palavra ou de métodos revolucionários de evangelismo. Ver o sol nascer não me traz a revelação do método mágico de ganhar dinheiro ou de obter sucesso; muito menos me faz lembrar de como o mundo poderia ser bom.

Na verdade, ver o sol nascer nada tem a ver com coisas grandiosas, para mim. Ver o sol nascer não me leva a querer aproveitar o dia como se não houvesse amanhã, e com certeza não me lembra que preciso me poupar para a posteridade. Não, não há segredo nenhum revelado, ou verdade descoberta durante o nascimento do sol.

Ver o sol nascer, de fato, me lembra das pequenas decisões que fiz. Daquele momento que, aos 11 anos, vendo o sol nascer, eu percebi que as coisas não eram tão simples quando meu pai perdia o emprego; ou aquele dia em que eu vi o sol nascer num quadradinho de janela do banheiro, aos 13 anos, ao som de Atom Heart Mother, do Pink Floyd. Me lembra ainda, da primeira vez que vi o sol nascer acompanhado por amigos, em um primeiro de janeiro, aos 15 anos. Ou, exatamente um ano depois, o vi nascer com a minha primeira namorada. Me lembra também daquele que vi nascer no dia após o término do meu primeiro namoro, e de todas as coisas que passaram pela minha cabeça.

Não é que exista algo no nascer do sol. Mas que talvez a transformação de consciência, a mudança de visão de sociedade quando me converti, me deixe não só ver, mas desejar a beleza da simplicidade. Provavelmente este é o mais importante dos conselhos que eu já recebi na vida (logo atrás de sempre carregar minha toalha), me satisfazer com o pouco que tenho. Que fiz. Que vivi. Com as poucas vezes que vi o sol nascer.

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Publicado 10/25/2011 por Abigobaldo em dorgas

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3 Respostas para “Do nascer do sol.

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  1. Ae, que lindo ain =)

  2. faltou a foto =)

  3. Nossaaaa Igorzeyshan!!! =)
    Amei… maravilhoso… Esse menino tem mesmo o dom da retórica. ^^
    Obrigada pelas palavras neste fim de noite! 🙂

    Beijos

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