A Teologia Abigobaldense da Melhor Salvação de Todos os Tempos da Última Semana   2 comments

Minha formação teológica vem de Dostoiévski; das letras de música de Andrea Bocelli. Minha completa percepção de meu afastamento de Deus é expressada na agonia de Piotr Pietróvich, cuja consequência foi o suicídio. Minha melhor expressão de amor divino vem de letras pagãs italianas clássicas, que misturam amor com Amor – até porque o Amor sem amor é vazio.

Minhas falhas são expostas por sociólogos e o meu método de lutar contra elas sai de cientistas políticos. Minhas reflexões são baseadas em perguntas de filósofos, e minhas indagações foram feitas com apoio de psicólogos.

Minha formação teológica pura é nula. Sei tanto das diferenças entre arminianistas e calvinistas como sei diferenciar marcas de leite em pó em potes sem o rótulo. E não me arrependo disso. A minha formação intelectual é totalmente carnal, não pretende cobrir todos os aspectos da dinvidade nem se põe num lugar de soberano entendimento.

Meu conhecimento vem de fontes falhas, porém apaixonadas. De pessoas desesperadas por amor, daquelas que sofrem lutando para acreditar naquilo que eu sou fraco demais pra declarar com minha vida.

Eu não acredito numa sistemática dos planos divinos escrita por homens; ou numa revelação plena de todos os planos divinos ipsis literis. A minha teologia pessoal não funda igrejas nem traz multidões, sequer conforta completamente meu coração, pois ela não pretende substituir Deus.

Minha teologia não se preocupa com quantos paus são necessários pra construir uma canoa que atravesse o Rio dos Mortos para se chegar ao céu – ou quantas moedas de ouro dar ao barqueiro.

Não me importo se a escada para chegar ao céu é grande, se é rolante ou voante. Não me importo se seria erguido por anjos, pelas minhas boas ações ou pela minha pureza. Na verdade, chego a desprezar a tentativa de conhecer se serei salvo.

A minha teologia me permite viver livre dessas dúvidas, dessas crises de quem tenta decidir algo que está além da sua alçada; ela me permite amar incondicionalmente meu Deus e fazer de cada dia um novo dia, com novos erros a serem feitos e consertados.

Nela eu não conheço o desespero de quem se acha ruim demais, porque com ela eu descobri que sou ruim demais, e não vai ser o choro desvairado que vai me levar a algum lugar, mas a força de pedir perdão e estender a mão para a pessoa que eu acabei de passar uma rasteira; assim como me humilhar pelos meus erros.

A minha teologia me deu a opção de me agarrar na Verdade como se não houvesse amanhã, e de fazer tudo o que preciso (ou ache que preciso) agora, tipo, não, AGORA. Ela me deu a opção de tentar consertar as minhas besteiras imediatamente, ao invés de esperar anos de corações quebrados e pessoas afastadas.

Ela me trouxe a possibilidade de me submeter a mais autoridades e corações do que qualquer discurso formal teológico traria, e de escutar o maior número de pessoas das mais variadas origens com mais atenção do que eu ouviria o culto de domingo se minha teologia gostasse de se travestir de espiritual.

A minha teologia me veste, completamente. Não porque fico confortável com ela, mas porque suas falhas me lembram que ela não é a Verdade, e que eu nunca chegaria à Verdade sozinho. Minha teologia me pinica, me aperta, me arranha, me machuca. Me pinica porque, se eu me sentisse confortável demais, não teria essa urgência de viver; me aperta porque eu sempre tive a tendência de ocupar mais espaço do que o necessário; me arranha porque minhas escamas precisam sair, o mais cedo possível, para que eu chegue à cura; e me machuca pela minha imperfeição constante.

Não sei bem o que dizem Spurgeon, Piper, Bell, ou qualquer outro mestre da teologia moderna, mas eu consigo basear tudo que aprendi (e continuo a aprender e buscar) deles com Rawls, Tocqueville, Rousseau, Freud, Nietzsche, Hume, Bocelli ou Jung.

Minha teologia me permite ouvir o Jack Black derrotar o diabo com o melhor riff de guitarra já feita no mundo e conciliar isso com as poucas respostas dadas por Rob Bell sobre a espiritualidade.

Porque sou tão fraco, que até uma mula pode me ajudar. Porque você não poderia?

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2 Respostas para “A Teologia Abigobaldense da Melhor Salvação de Todos os Tempos da Última Semana

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  1. Eu leio um texto deste e me percebo tão bem descrito por alguém que está à milhas de distância…respiro fundo e penso que não estou sozinho e nem sou estranho por também pensar assim…

  2. Pingback: De ‘Graça’ não morro de fome «

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