Egoísmo, ambição? Acho que não.   Leave a comment

Quem já pisou numa reunião de culto, de qualquer religião já cansou de ouvir: o problema do mundo são as pessoas – e não apenas as pessoas, mas o egoísmo relativo a elas. Invariavelmente, nós buscamos nas religiões um caminho a se seguir para fugir dos problemas que esse egoísmo gera, em nós e nos outros.

O nosso egoísmo vai além daquele conceito de ambição que está em moda hoje. Na verdade, o nosso problema está além do nosso próprio egoísmo. A nossa prepotência é tão grande, que qualquer assunto que não nos atinja diretamente não tem importância.

Ontem, numa conversa, ilustrei esse assunto com uma conversa que participei na minha faculdade – para quem não sabe, estou no último ano de Direito.

Recentemente, instalaram aparelhos de ar-condicionado em todas as salas, pra evitar aquele mormaço que acontece ali pelas 10 horas, quando o Sol bate nas janelas diretamente, e são abolidas todas as condições para existência de vida dentro da sala de aula. Aconteceu, porém, que esqueceram o ar-condicionado ligado no sábado à tarde – e ele ficou ligado direto, até segunda feira pela manhã, quando começou minha aula.

Cheguei em sala, e vi o ar-condicionado ligado e todas as janelas e portas abertas. Para quem não sabe, a potência do ar condicionado é medida em BTUs (British Thermal Unit, ou Unidade Térmica Britânica), que é a energia necessária para se elevar (ou reduzir) a temperatura de um espaço em 1ºF. Cada aparelho tem uma capacidade máxima de BTUs, e quanto maior o ambiente, mais BTUs ele deve ‘ter’.

Quando se deixa o ambiente aberto, a necessidade de BTUs tende ao infinito, o que gera, além de um funcionamento ininterrupto do aparelho, ainda provoca panes no compressor de ar – que não foi feito para medir a temperatura de um ambiente tão extenso – e da xabú. O ar-condicionado estraga.

Aí, eu, todo ingênuo, fui tentar explicar o risco de se estragar o condicionado, pra quê.

“Mas a sala estava gelada”
“Não tá tendo aula, não precisava entrar”
“Eu vou esperar lá fora?” – obs: lá fora é o corredor do prédio, com cobertura e paredes.
“Porque não?”
“Mas quem tem o controle só chega às 8h, a aula começa às 7h”
“É só assistir na outra sala, o pessoal de lá não tem aula agora”
“Eu não vou sair da minha sala, você se quiser que corrija isso aí, já que tá colocando defeito”

Peraí, vamos lá, quantos erros há nessa frase.

Primeiro, e mais óbvio: numa faculdade, ainda mais numa faculdade pública, não há conceito de minha sala, ou sua sala – cada aula é ministrada em um espaço diferente, e a sala é da aula, não dos alunos (o Ensino Médio na escola particular ficou pra trás); segundo, o ar-condicionado estragar é problema dos alunos sim, porque além de serem eles quem vão voltar a sofrer com o calor, foi verba da Faculdade de Direito que comprou o ar-condicionado (verba essa que deve estar em sobra, pelo visto), e tem a ver, na verdade, com todo mundo – principalmente quem não estuda na UFU e não utiliza do ar-condicionado e pagou por ele; terceiro, quem colocou o defeito foi a pessoa que definiu a sala estar gelada, não quem propôs soluções para o problema.

Nós estamos querendo nos afastar de tudo aquilo que nos dê trabalho, nos faça envolver com algo. Por mais simples que seja. Quer seja pessoas, relacionamentos, movimentos, ações, protestos ou direitos. E se nós, alunos do último ano de Direito, quase todos com Carteira da OAB conquistada, fugimos de responsabilidade e dos nossos direitos, o que podemos exigir da sociedade? Ou o que podemos exigir que a sociedade pense de nós?

Só não podemos deixar a Igreja ser invadida por esse pensamento mesquinho. Ou não podíamos ter deixado.

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Publicado 11/11/2011 por Abigobaldo em Opinião

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