Sobre o bar, e a igreja.   1 comment

Um dia eu fui na igreja. Tempos depois, fui no boteco.

No boteco, me cumprimentaram, alguns mais efusivos até me abraçaram, me deixando meio sem-graça. Na igreja, um cara na porta me gritou um PAZDOSENHOR com um olhar pra minha roupa que me fez dar uns dois passos pra trás, com medo daquilo ser um tipo de repreensão.

Na igreja, logo começaram a falar sobre o meu jeito de vestir, as correntes que eu usava e o comprimento do meu cabelo; anos depois, no boteco, aceitaram-me como sou – minha barba desleixada, minha calça meio-suja e minha camiseta com cara de velha.

No boteco, não criaram nenhum caso por eu não beber álcool, me deixando à vontade pra consumir o que eu quisesse, embora sempre me oferecessem alguma coisa; na igreja fizeram cara feia pra quantidade de refrigerante que eu bebia.

Na igreja, não aceitavam a minha namorada que acreditava em Deus sem ir muito em cultos ou missas; no boteco, aceitaram e curtiram minha namorada formada em teologia.

No boteco, se interessaram e perguntaram sobre minhas crenças, meu relacionamento com Deus, e no que isso refletia na minha vida; na igreja, me passaram uma meia dúzia de papéis que eu deveria fazer, com uma máscara específica para cada um: como agir lá dentro, como agir com os incrédulos, como agir durante o evangelismo, e assim por diante.

Por isso eu falo tanto de igreja – eu encontrei o que eu esperava na igreja, com amigos dentro de um boteco: com os que eu já conhecia, com os que eu conheci lá, e com os que só vi uma ou duas vezes; eles me cumprimentam com uma sinceridade muito maior do que os porteiros voluntários da igreja. Amigos do boteco conversaram comigo quando eu e a Joyce quase terminamos, e ofereceram o ombro e os ouvidos – além de pagar a conta. Amigos da igreja ficaram calados, e disseram que a vida é assim, quando terminei com a minha ex, mal esperando duas semanas para convidá-la para sair.

Claro, a igreja não é perfeita, é formada por homens, pessoas falhas. Mas pessoas que foram ensinadas a ignorar suas falhas, a escondê-las e a ensinar aos outros que façam o mesmo, em nome de algo que chamam de comunhão. Acham que têm comunhão, mas conhecem-na apenas de ouvir falar. A comunhão não é algo que se busca, é algo que se tem.

Sinto-me como Paulo, que perseguia a Igreja em nome de uma fé vazia, aparente, que está no seguir ordens – não matei ninguém, ao menos não fisicamente. E, graças aos meus companheiros de bar que hoje consigo olhar para mim mesmo no espelho, ver as minhas falhas e não entrar em depressão ou cair no choro como muitas vezes o fiz, depois de aconselhar jovens a fazer algo que eu não era capaz – e exigir deles que o fizessem.

Anúncios

Publicado 12/21/2011 por Abigobaldo em Igreja

Etiquetado com , , , , ,

Uma resposta para “Sobre o bar, e a igreja.

Assinar os comentários com RSS.

  1. Sinto-me do mesmo jeito das últimas linhas. Me parece que eu não aprendi a graça. Dói errar, de um jeito que só me afasta de Deus. E agora comofas?

    Aristóteles de Oliveira Marques

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: