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Amor de dois segundos   1 comment

Se tinha alguma coisa que atraía turistas, com certeza ela aquela água. Milhares de pessoas, todos os meses, durante o ano inteiro, apareciam para ver o milagre daquelas águas caindo. Pode parecer bobo, mas as cataratas daquele lugar eram impressionantes – a água corria bem debaixo da passarela a centenas de quilômetros por hora, o que fazia qualquer cidadão ficar parado admirando por várias horas aquele trabalho monumental da gravidade, sem se importar com o tanto que ele se molhava no processo.

Mais que 20 segundos ali já era suficiente para sair com as vestes encharcadas. Mas com toda ironia que é característica dessa raça formada por turistas, a água que sobe não é a mesma água que desce. Se divertir com a água torrencial da cachoeira, que bate na superfície e volta ricocheteando parece uma boa ideia, mas de repente, a água caindo do céu não é mais tão divertida assim.

Na correria que brotou, a cachoeira continuou na sua, porque ainda havia alguém por quem ela poderia correr. Parado, suado, cansado, ele ainda estava ali, com água (não se sabe se da chuva ou da cachoeira) escorrendo pela barba, ele continuava ali, admirado, regozijando-se com a água que caía, que ele mal podia ver, com o embaçamento dos seus óculos.

Por alguns momentos ficou ali, em transe, no meio daquele turbilhão de água, daquele barulho enorme até que – olhou em volta e viu que estava sozinho.

Pisou no chão ainda meio seco, com seus tênis velhos encharcados, diante da cara de reprovação de todos, que fingiam estarem secos (em comparação, realmente estavam) e foi abrindo caminho até as escadas

-Permisso – pedia, antes de passar pelas pessoas, e foi abrindo caminho – sabes donde son las escaleras? – perguntou para uma garota na fila dos elevadores

-Lá… Pero… pueden subir por allá?

-Porqué no?

Naquele segundo, o mundo parou. O olhar dela, ao mesmo tempo querendo que ele a convidasse, ao mesmo tempo em dúvida se deveria estar pensando nessas coisas, afinal, nunca tinha-o visto, ela estava num país desconhecido, não poderia largar suas amigas, e putz… que chuva. Mas todas essas dúvidas caíam junto com a chuva quando via o brilho no olhar dele, com aquele sorriso de quem está prestes a fazer uma besteira. Era um encantamento, que desaparecia assim que ela parava de olhar para ele, e por isso se sentia cada vez mais atraída a olhá-lo, a desvendá-lo, a compreender o que passava naquela cabeça.

Mas, quando foi avisar suas amigas que iria de escada, ele subiu, e se foi. Sozinho.

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Publicado 02/27/2012 por Abigobaldo em dorgas

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Sonhos de um profeta   Leave a comment

Estava dormindo, quando acordei assustado
Não queria acreditar no que tinha sonhado
É que não sei se foi como uma premonição
foi como ver meus medos numa revelação

Eu vi igrejas fechadas, celebrando a glória
vi pessoas andando perdidas, mundo afora
Gritos de ódio saindo dos slogans de amor
hipocrisia se revelando com todo esplendor

Estive num grupo de oração
sem uma palavra de perdão
Passei até por manifestação
toda de caras de reprovação

Em todas aquelas casas com o sinal da cruz
Jesus encarou pecado onde devia haver luz
Aqueles quarenta dias sem ter nenhum pão
eram desperdiçadas em mesas de perdição

Participei de louvor ungido
passei a mão no óleo vivo
Fui em cultos de consagração
neles não ouvi dizerem não

Prédios construídos todos cheios do poder
poder daquele que dizem que ninguém vê
Os cegos guiados por quem diz o conhecer
ignorantes de tudo aquilo que é o real saber

Estive na mesa de uma nova inquisição
o diabo e as testemunhas de acusação
trocando suas farpas com aquele varão
O mesmo que não quis abrir a sua mão

Ternos, trajes, todos na última moda
o reflexo de uma vida que se enrola
As marcas do peixe gospel brilhante
grudada na lataria do carro possante

Pobres sobrevivendo sem amor
abandonados junto com sua dor
A prostituta correu com temor
Da revolta dos justos do Senhor

Tudo isso foi nos meus sonhos que eu vi
Mas não sei acordar, não sei como lutar
Me parece que, na verdade, eu não dormi
Mas, no fundo, a verdade foi que eu nasci

 

Publicado 02/22/2012 por Abigobaldo em dorgas

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Janela Aberta   1 comment

Acostumei a me deitar nessa cama vazia
Você distante além do que a gente queria
Os dias passam e a coberta continua fria
Perco o sono, como há muito não perdia

Tudo se passou, de nós ficou só o adeus
Tudo já mudou, e as promessas ficaram
Você saiu de casa, deixou a janela aberta
E sem você aqui, eu não consigo fechar

Toda noite o vento entra, me arrepia
Sem você, minha cama continua fria
Penso em levantar, ir me esquentar
Mas eu sei que a janela não se fechará

Tudo se passou, de nós ficou só o adeus
Tudo já mudou, e as promessas ficaram
Você saiu de casa, deixou a janela aberta
E sem você aqui, eu não consigo fechar

Conto as horas enquanto o sono não vem
Lembrando como era bom ter você aqui
Não me importava se a janela ia se abrir
Nos acostumamos a fingir que tá tudo bem

Tudo se passou, de nós ficou só o adeus
Tudo já mudou, e as promessas ficaram
Você saiu de casa, deixou a janela aberta
E sem você aqui, eu não consigo fechar

Toda noite o vento entra, me arrepia
Sem você, minha cama continua fria
Penso em levantar, ir me esquentar
Mas eu sei que a janela não se fechará

Publicado 02/21/2012 por Abigobaldo em dorgas

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Do que eu perdi   1 comment

Parei de andar,
não reconheci meu lugar
Parei de relutar,
juro eu tentei recomeçar
Parei pra chorar,
Não havia pronde sonhar

Tudo parece tão distante,
não sei onde nos perdemos
Tudo parece tão obscuro,
o que foi que nós fizemos?
Tudo parece tão errado,
Será que nos esquecemos?

Olhar pra trás é buscar se machucar
abrir feridas que não vão cicatrizar
Sentir falta ainda sem saber te olhar
Como se não bastasse mais te amar

Tudo parece tão distante,
não sei onde nos perdemos
Tudo parece tão obscuro,
o que foi que nós fizemos?
Tudo parece tão errado,
Será que nos esquecemos?

Publicado 02/20/2012 por Abigobaldo em dorgas

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Todo errado   Leave a comment

Pode ser fácil dizer que tudo mudou
que aquilo que a gente tinha passou
Mas seus olhos me dizem não saber
qual o dia que eu me perdi de você

Me vi numa vida meio inconstante
sem saber como era mesmo antes
Aqueles dias viraram mais um mês
Nós ainda caminhávamos errantes

Deixar pra trás não é complicado
quando não há nada a perder
O problema que eu, todo errado
grudei a minha alma à você
E guardo silêncio, eu fico calado
vendo tudo isso se desfazer

Me vi numa vida meio inconstante
sem saber como era mesmo antes
Aqueles dias viraram mais um mês
Nós ainda caminhávamos errantes

Sem calor, sem sabor, perdeu a cor
O passado ficou só na memória
Fica o medo, o segredo desde cedo
Receio de errar a partir de agora

Deixar pra trás não é complicado
quando não há nada a perder
O problema que eu, todo errado
grudei a minha alma à você
E guardo silêncio, eu fico calado
vendo tudo isso se desfazer

Publicado 02/12/2012 por Abigobaldo em dorgas

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Mazah [2]   2 comments

Um ano atrás, eu escrevi um post nesse blog. Há exatos 365 dias eu explicava, sem ter maiores motivos (claro), porque eu não gostava de aniversários, e dava parabéns pra uma garota, que eu tinha conhecido há menos de 10 dias, pelo Twitter, de um jeito meio bizarro, em um dia de quase Natal (período entre o dia 22 e 24 de dezembro).

Essa garota, que demorou mais um tempo pra gente acertar nossas diferenças, acabou virando tema de um post meu, sobre aniversários, no dia do aniversário dela. Quem ouve Los Hermanos ou qualquer bandinha pop romântico-adolescente sabe que isso ou ia dar merda ou ia dar uma música grudenta (uma variável de merda) – Pois então, deu merda. Pra quem eu não sei, mas deu. Acho que deve existir um nexo causal de fazer-um-post-de-aniversário-pra-alguém-do-sexo-oposto que necessariamente leva a um relacionamento, mas isso não importa; deixarei para vocês tentarem e descobrirem.

Mas sei que há um ano atrás, eu olhava pra tela do computador, e escrevia para essa garota, num post de um blog inexpressivo, sem saber quem ela era, mas com um único intuito: o amor a trollagem – afinal, escrever um post contra o aniversário, detonando as comemorações de alguém, e dar parabéns no final, se não for trollagem, eu não sei o que é.

E não dá nem pra salvar, com uma música meio sertaneja, falando que era uma trollagem de amor, ou trollagem de amor não dói. Entre trollagens e parabéns, talvez, mas… naah – rola não.

O negócio é que, conheço essa Joyce há uns 370 dias, que é quase 400. O que não é porra nenhuma. Desses 370, a gente passou junto uns 25, que não dá nem o dízimo disso. Mas da primeira vez que a vi, ali no dia 10 de abril, às 6:07 da manhã (o meu ônibus, circular, atrasou, o dela, intermunicipal não), numa rodoviária de uma cidade que nenhum de nós conhecia, a 6 horas da casa dela e a 20 da minha, eu sei que rolou alguma coisa muito bizarra, e não foi a coca que eu pedi na lanchonete 4 minutos depois (talvez ela não ter me criticado por isso, e pior, ter tomado dois goles), sei que meia hora depois a gente estava sentado num banco de praça, com a cabeça dela no meu colo e eu pensando –VÉI QUE ESSA GAROTA TÁ FAZENDO AÍ?

E ela estava olhando o céu. Aquela garota do twitter, a crentinha, a teóloga, que falava em ‘jovens cristãos’, ‘epistemiologia’, ‘escatologia bíblica’, e sabia citar pelo menos 5 reis Assírios e de qualquer outra civilização bíblica à sua escolha, bom, essa garota estava com os lábios colados aos meus, às 9:20 da manhã, ouvindo William Cosmo na casa de um (ainda) quase desconhecido para nós. Sim, eu estava hospedado na casa de um quase desconhecido.

E daí, saindo da casa de um rabino, esta teóloga protestante, evangélica ungida, foi para o Bosque do Papa – e lá ela caiu (não literalmente, literalmente ela escorregou várias vezes, sem cair nenhuma). Lá todos aqueles assuntos sobre como encontrar um amor, como se portar frente a um garoto, e como começar um relacionamento abençoado foram esquecidos, rasgados, empilhados, queimados e suas cinzas jogadas entre as casinhas polonesas.

Logo antes de comprar um bolo de chocolate polonês (que reza a lenda que era melhor que os brasileiros, ela pode confirmar pra vocês), bom, a casa caiu, rapaz.

E, mais tarde, no mesmo dia, a primeira despedida, neste mesmo 10 de abril – e um ônibus perdido.

A partir daí, a história se repetiu várias vezes, em meio a várias brigas, discussões e choros. Choros de alegria e de tristeza, de saudade e de irritação, de amor e de frustração. Acho que nós contemplamos o fim do nosso relacionamento a sério duas vezes, mas em nenhuma acho que ficamos tão perdidos quanto ficamos naquele 10 de abril. Sem um relacionamento definido, sem uma promessa, sem uma chance de nos vermos novamente, tudo parecia se acabar ali, morrendo antes mesmo de começar. Como eu iria colocar no status do meu facebook?

E foi buscando uma perfeita atualização do meu facebook, pouco mais de um mês depois, a pedi em namoro – e fiz a minha melhor escolha de 2011 (e de muitos outros anos também).

Joy, parabéns por sobreviver mais um ano. E mais – parabéns por ter ME aguentado e sobrevivido a isso durante um ano. ISSO sim é algo a se comemorar.

“Hoje é aniversário da @joyceAdeline. Bom trabalho, em sobreviver, garota!”

Publicado 12/29/2011 por Abigobaldo em dorgas

Do nascer do sol.   3 comments

Hoje eu vi o sol nascer de dentro de um ônibus coletivo. Tem se tornado um hábito, ver o sol nascer, pegando ônibus em algumas cidades do Brasil, desde que resolvi prestar esses processos seletivos para Mestrado.

Não sei porque, mas toda vez, dentro de mim há um quê de excitação, de alegria, toda vez que vejo o sol nascer, escalando os prédios, lançando raios tímidos sobre uma cidade que reluta em acordar – mesmo já estando atrasada em pleno horário de verão. Ver as pessoas indo e vindo, imersas em seus fones de ouvido, em seu último cochilo antes do trabalho, aqueles, mais desconfiados, que lançam olhadas furtivas à sua volta, procurando coisas suspeitas, os solteiros desesperados que creem na possibilidade de encontrar o amor da sua vida num ônibus, mesmo que a garota esteja mais interessada em procurar quarenta novas maneiras de se arrumar no banco para se sentir mais confortável. Leia o resto deste post »

Publicado 10/25/2011 por Abigobaldo em dorgas

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